6/03/2011

Sobre o "kit gay" (em português; baseado num artigo que publiquei no jornal argentino Crítica)

Adolescências roubadas


POR BRUNO BIMBI — Jornalista argentino, mestre em Letras pela PUC-Rio, ativista gay e autor do livro “Matrimonio igualitario. Intrigas, tensiones y secretos en el camino hacia la ley” (Planeta, 2010).

A gente estava reunido numa praça. Éramos colegas do colégio e estávamos a criar uma agrupação estudantil. Era quase noite. O garoto loiro chamou tanto minha atenção que, de repente, eu esqueci o tema da discussão, sem entender nem me perguntar por quê. Eu apenas soube — assim, sem dúvidas — que nós seríamos amigos, porque “amigo” era o único que eu concebia que pudesse ser de outro garoto. Eu não entendia por que tinha um desejo tão forte de começar uma amizade com alguém que mal conhecia, mas o certo é que a gente virou muito amigo.

Quando a nossa amizade já era tão importante que nós não entendíamos como faríamos para viver sem ela, o garoto loiro me convenceu do que as minhas amigas não tinham conseguido: que eu mudasse o visual, que ficasse mais moderno, com roupa mais maneira, que cortasse o cabelo, que além de assistir a reuniões do centro estudantil, eu fosse a boates e festas, que fizesse coisas proibidas para menores de dezoito anos antes de fazê-los, que me divertisse mais. E eu vesti a roupa que ele me presenteava, cortei o cabelo que nem o dele, conheci as boates com ele e a gente se divertiu junto.

Ele ficava com todas as garotas. Eu o acompanhava, o esperava, o ouvia quando ele me contava: eu não me dava conta. Um dia, a gente estava deitado na varanda da sua casa e ele me disse que tinha tanto tesão — nós éramos adolescentes, os hormônios enlouquecidos — que transaria até comigo, e agora eu lembro que pensei o que naquele momento não reparei que eu tinha pensado. Foi um flash, um impulso, um calafrio, depois a censura e o esquecimento, tudo numa fração de segundo. Não respondi. Mudamos de assunto e o tempo passou e ele continuou trocando de namoradas e eu fui eleito secretário-geral da juventude do partido e um dia me dei conta que já tinha vinte e três anos e o sexo era chato. O sexo era chato.

Era como uma promessa descumprida — o sexo. Eu exercia meu mandato, mais por obrigação do que por vontade, imitando os outros, mas não recebia em troca os prazeres que o meu amigo me contava depois de suas incursões no corpo feminino. O pior era o beijo: não tinha sabor a nada. Era um trâmite necessário, burocracia, o ingresso que eu devia pagar para passar ao próximo nível, com um pouco de satisfação física seguida de uma incompreensível sensação de que alguma coisa não estava funcionando. Minha adolescência acabou e eu não consegui achar a combinação da fechadura que abrisse a porta ao paraíso que o meu amigo jurava que existia e que eu, é claro, fingia conhecer.

Anos depois, uma noite, por acaso — ou talvez não —, um outro amigo heterossexual me levou a conhecer uma boate gay. Eu fui porque ele insistiu que seria divertido, embora eu não curtisse a ideia de ir a um lugar para veados. Foi assim que eu falei: veados. Mas voltei logo, com desculpas tão ruins como as que, naquela noite da minha adolescência, naquela praça escura, tinham justificado meu interesse pelo loiro. E pouco depois, um amigo de outro amigo, na boate para veados, não acreditou que eu nada a ver, e tentou várias vezes me dar um beijo, até que a testosterona bateu de frente com uma bolha de champanhe num fluxo sanguíneo acelerado e eu não resisti mais. Por que não ia beijá-lo se eu também estava morrendo de vontade? O descobrimento foi instantâneo: o beijo era isso. Depois, é claro, o sexo, a fechadura se abriu — não era chato! Eis os prazeres dos que o meu amigo loiro falara. Eram tal qual.

Então, já não precisei me dar conta. A censura evaporou-se. Alguma coisa não tinha acontecido naqueles anos e, quando tudo ficou claro, eu senti que tinham roubado minha adolescência. Dentre todas as coisas da vida que nos proibiram aos gays, a adolescência é a mais injusta.

Eu quero que me devolvam. Quero viver cada experiência no momento justo. Quero ter meu primeiro namorado na mesma idade em que os meus amigos tiveram sua primeira namorada, e que os primeiros beijos sejam desajeitados, experimentais, cheios de surpresas, e descobrir o sexo com inocência e ficar bêbado quando ainda não tinha idade para beber, e ser repreendido na escola — não por uma causa justa, mas por uma divertida — e fazer tudo o que é proibido para menores de dezoito anos antes de fazer dezoito anos. Eu quero que o garoto loiro me diga de novo que tem tanto tesão que transaria comigo e transar com ele na sua casa, naquela tarde, em pleno verão, em plena adolescência, com os hormônios enlouquecidos.

As experiências perdidas são irrecuperáveis, pois nunca mais estaremos lá para sabermos como teriam sido. Quando falamos em educação sexual na escola, a que tanto assusta o deputado Bolsonaro, a que eu não tive, nós estamos falando também das adolescências não realizadas, dos desejos censurados, das experiências não vividas. Pelo bem dos rapazes gays e lésbicas que ainda estão a tempo de não perder seu tempo, de sair do armário antes que seja tarde, de amadurecer sem fantasmas medievais os perseguindo, a gente precisa romper as barreiras que fazem da nossa sociedade um lugar menos amigável para alguns. A polêmica do mal chamado “kit gay” tem tudo a ver com isso.

O que nos ensinaram na escola estava incompleto, era falso. Mentiram-nos, porque nos contaram um mundo em que nós não existíamos. Nos roubaram o direito de viver as mesmas coisas que os nossos amigos viviam e nós as perdíamos porque só vinham em formato garoto+garota e ninguém nos tinha avisado que nós podíamos ser — e não tinha nada de errado se fôssemos — diferentes.

2 comentários:

Leo dijo...

Bruno, que lindo texto. Eu tambem vivi uma situação muito parecida, mas eu finalmente me dei conta aos 17 anos e não deixei de viver tanta coisa como você. Mas de qualquer forma, fiquei pensando em quantos sonhos roubados, desejos reprimidos e censuras em nós ainda funcionam no mundo que vivemos hoje. Precisamos fabricar um mundo mais aberto a multiplicidade dos afetos.

Carlos dijo...

Texto maravilhoso, me identifiquei.